Impactos da covid-19 no agronegócio brasileiro

Afora a perversa questão de saúde e humanitária, a pandemia, até antes e dentro das porteiras, em nada afetará a agricultura brasileira

Creio que este ano, a convite de seu atual redator-chefe, Sergio Lírio, completo 10 anos de participação no site de CartaCapital. Antes havia feito algumas aparições na impressa. Sempre discutindo agronegócios. Deveria continuar. Por que não? É o meu trabalho. Fui ao lançamento em simpático bar-restaurante dos Jardins, em São Paulo. Que festa! Em 2010, acreditávamos em uma democracia social em evolução. Na primeira coluna, prometi analisar o agronegócio “visto assim do alto”, como sugeria Paulinho da Viola para a Mangueira, e “com a lupa”, a visão da necessidade de se diminuir a desigualdade cidadã. Creio ter cumprido, em cerca de 500 textos, minha lição de casa, ditada pela publicação.

No período, achei menos fundamental considerar e analisar as vitórias do agronegócio de exportação de commodities agrícolas. Corriqueiro e óbvio nos últimos dez anos, grande vitória da vocação agrícola brasileira. Claro que houve (e crescem) favorecimentos escandalosos, bem como erros de condução evidentes. Mas, vá lá, critiquei-os de forma pontual, quando tomei da lupa, mas do alto sempre o reconheci importantíssimo para economia pouco inovadora e tecnológica. Pior, hoje em dia, estado de Guedes-frangalhos, pois o Regente Insano Primeiro (RIP), já confessou não entender disso, e que eu perceba, de nada mais.

Em meus textos, sempre preferi mostrar importância, mazelas, formas de ajustes da agricultura familiar, que fossem de forma sistêmica. Fiz. Insisto e mais não digo, por cansaço da repetição e da obviedade: agricultura para exportação de commodities e familiar para atender o mercado interno ou não, tudo é (!) agronegócio.

Mas e a covid-19, entendido pelo RIP como “gripezinha”? O que faziam 01, 02, 03 que não o avisaram? Afora a perversa questão de saúde e humanitária, a pandemia, até antes e dentro das porteiras, em nada afetará a agricultura brasileira. O vírus chegou aqui atrasado, perdeu o bonde, a bandeja de acepipes passou à sua frente e ele bobeou. A grande safra já estava plantada. O PIB agropecuário crescerá entre 3% e 4%, mais uma vez compensando a tibieza da política econômica bolsonarista; o Valor Bruto da Produção (VBP) deverá crescer cerca de 9% sobre o ano anterior, e bater um novo recorde, para perto de 690 bilhões de reais.

Se, por um lado, segundo o índice geral de preços, publicado mensalmente pela FAO, mostra as cotações das principais commodities agrícolas constantes há quase 12 meses – com tradicionais, mas não dramáticas, gangorras -, no momento, para os exportadores brasileiros, a estabilidade é, fortemente, impulsionada pelo câmbio. Somente mês de março, já houve uma apreciação da moeda americana de 15%, enquanto no ano de 2020, de 28%. Algumas complicações poderão surgir, temporariamente, na agroindústria e nas atividades de distribuição.

Grave mesmo, e com RIP nada é de se duvidar, embora ele decida uma ação num dia para logo torná-la sem efeito no dia seguinte, seria, justamente, em época de crise, mudar a política de ICMS sobre as exportações. Para obter recursos para combater a pandemia há outras formas mais adequadas, certamente, ligadas à financeirização da economia. No mercado interno, num primeiro momento, hortaliças, legumes e frutas, que vinham sendo prejudicados pela falta de demanda, provocada pela política restritiva do governo no que diz respeito a emprego e renda, com a covid-19 houve uma corrida às gôndolas dos supermercados, o que favoreceu escoamento e ajuste de preços nos centros de abastecimento.

Embora o isolamento social provoque um arrefecimento natural na procura, é de se imaginar que, sendo alimentos perecíveis, tradicionais na ração alimentar brasileira, logo deverão ser repostos a preços não inflacionários. Notícias que vêm das regiões produtoras mostram plantio em expansão. O fornecimento de insumos agrícolas poderá ter sua sazonalidade habitual (35% x 65% no ano), levemente afetada, mas não deixará, e nem pode, de seguir o ciclo das culturas.

O que seria recomendável a caboclos, campesinos, sertanejos e proprietários de grandes culturas é olharem para os custos de seus fatores de produtores, sobretudo insumos importados ou aqui fabricados por grandes multinacionais, confrontados com tecnologias orgânicas, organominerais, naturais de custos infinitamente menores, e capazes de reduzir as aplicações de agroquímicos e agrotóxicos, mantendo semelhante produtividade.

Fonte.: Carta Capital